Religião, Espiritualidade e Materialismo

 

«Um Ente, dos mais entes soberano,

Que abrange a Terra, os Céus, a Eternidade;

Que difunde anual fertilidade

E aplana as altas serras do oceano:

Um númen só terrível ao tirano,

Não à triste, mortal fragilidade,

Eis o Deus que consola a humanidade,

Eis o Deus da razão, o Deus de Elmano.

Um déspota de enorme fortaleza,

Pronto sempre o rigor para a ternura,

Raio sempre na mão para a fraqueza;

Um criador funesto à criatura,

Eis o Deus que horroriza a Natureza,

O Deus do fanatismo ou da impostura.»

Obras escolhidas de Bocage, Artis, 1967, Vol. I

 

A religião deveria mas, infelizmente, não implica espiritualidade... a religião é dominante por, no mínimo, ser teológica e esta é impositora no seio da instituição, é indiscutível. A espiritualidade é como o amor, é intrínseca ao ser que sendo uno se observa, quando a desenvolve, uno com todos; a espiritualidade não existe sem a acção humanitária, sem esse uno: a unidade com o eu e o(s) outro(s) - ou do eu com o(s) outro(s), um facto(r) da cons-ciência. A religião é feudal enquanto que a espiritualidade coexiste com todas as formas de pensamento inclusive e, óbvio, as materialistas que considera um nível sine-qüa-non, da evolução (pelo menos do ponto de vista da visão) kármica, onde as formas existem nos seus influxos e refluxos como o ar nos pulmões e o ver do sentir. A religião é castrante enquanto a espiritualidade obriga a deduzir, em suma: a pensar; cada um por si e cada um uno com todos, até porque a caridade, a veracidade e a fidelidade começa na casa que, para além do nosso corpo físico, engloba muitos materiais e matérias mais subtis envolventes da una realidade que é o espírito - a razão de ser e (no) coexistir. Na religião o sacerdócio é o intermediário entre nós e Deus, na espiritualidade todos nós somos sacerdotes do templo que é o nosso corpo, segundo a Ordem de Melkytzedéque, todos nós somos Êlôim (Deus(es) - ou deus(es), como quiserdes).

Há quem necessite da religião e faz muito bem, há quem siga pela espiritualidade... melhor ainda! Não há métricas no sentido da evolução espiritual - consciência -, isto é, o membro duma religião não está a um metro de evolução e o que segue a espiritualidade a dois, apenas que a religião diz ao materialista e aos banidos - não obrigatoriamente excomungados - da igreja-instituição: «NÃO!» -, sendo isto inconcebível no seio da espiritualidade.

Olhar a Terra é tão importante como olhar o Céu; ver o acto humano é vislumbrar o acto divino; encarcerar termos por os encararmos como erros ou pecados é o encarcerar da vida - afinal quem somos nós e que autoridade possuímos para condenar os outros? -, de tal modo que a morte, a sua beleza, perde o sentido de ser fazendo-nos viver numa amargura, velada mas sempre presente... analisada do ponto de vista puramente materialista em nada diverge da do espiritual: morrer é realmente morrer, como afirma a Bíblia: «Pois os viventes estão cônscios de que morrerão, os mortos, porém, não estão cônscios de absolutamente nada...» (Eclesiastes 9: 5). Porque há morte, porque os poetas a cantam, filósofos, romancistas, ideólogos e tantos outros a assumem ao ponto de a amar-enfrentar, tal como apelam à beleza e ao amor, decidimo-nos ficar por ela no ponto (em e) como a conhecemos; isto é: morremos. Não somos mais do que o suplício de Tântalo ou o absurdo de Sisyfus... é na nossa vontade e dedicação ao material-glamor (tantos adjectivos quanto quizerdes), que compreendemos pela qualidade e não pela quantidade mesmo que esta afirmação pareça cartesiana... É que não o é!

 

Buddha afirmou:

«Não devemos acreditar numa coisa dita, meramente porque foi afirmada; nem em tradições apenas porque provêm de longa antiguidade; nem em rumores; nem nos escritos dos sábios apenas por terem sido escrito por eles; nem em algo que suspeitamos serem fantasias apesar de sentirmos que nos foram inspirados por algum Deva (isto é, presumindo inspiração espiritual); nem por inferências surgidas por qualquer acaso por nós provocado; nem porque aparente ser uma necessidade analógica; nem porque possui a autoridade dos nossos professores ou mestres. Mas devemos acreditar quando um escrito, doutrina, ou uma afirmação corrobora com a nossa razão e consciência. Por isto,», disse Buddha concluindo, «Eu ensinei-vos a não acreditarem meramente porque ouviram, mas somente quando acreditais com a vossa consciência e, neste caso, devereis actuar de acordo e abundantemente.».

 

«Qual tropa regular, a fradaria

Investe a sacra, estúpida ordenança,

A paz, filha do Céu, calada e mansa,

Dos couces, das patadas se desvia.

Preside alto Furor à lide ímpia,

De serpes infernais toucada a trança,

Pançudo frade borra a tudo avança;

O furor marcial nos sócios cria.

De um círio desenvolve heróicos feitos:

Deste rompe o nariz, daquele a capa;

Adeus, ombros; adeus, olhos e peitos!

Do sacro frenesi ninguém lhe escapa...

Oh que bem do Alcorão cumpre os preceitos

O revoltoso exército do Papa!»

Obras escolhidas de Bocage, Artis, 1967, Vol. I

 

A zombiedade das palavras e das afirmações tornaram o comum mortal num farrapo de pecados morrendo nos pedaços, nas migalhas da grandiloquência, sujeitos à miséria da dependência na qual a loucura tornou-se estatuto porque a monta psiquiátrica é de valor vulto. Mas o comum mortal, que já nem albergues tem lembra-me Eclesiastes: «... de modo que não há nada de novo debaixo do sol». Ao abandono sujeitos, baixo a disciplina duma lei, filhos da imposição sem físico para a enfrentar, nada mais do que o gozo duma nação, sem dignidade e já sem vida... mas zombiando, pela força das células e dos neurónios, ainda assistem-ouvem-sentem as barbaridades da demonstração de vida e demais imprecatórios aspectos que lhes tiram a virgindade da velhice... da existência.

In Apontamentos de Yhonathannah

 

 

 

HomePage

 

 

 

We are still cooking this page