Religião, Espiritualidade e Materialismo
«Um Ente, dos mais entes soberano,
Que abrange a Terra, os Céus, a
Eternidade;
Que difunde anual fertilidade
E aplana as altas serras do oceano:
Um númen só
terrível ao tirano,
Não à triste, mortal fragilidade,
Eis o Deus que consola a humanidade,
Eis o Deus da razão, o Deus de Elmano.
Um déspota de enorme fortaleza,
Pronto sempre o rigor para a ternura,
Raio sempre na mão para a fraqueza;
Um criador funesto à criatura,
Eis o Deus que horroriza a Natureza,
O Deus do fanatismo ou da impostura.»
A religião deveria mas, infelizmente, não implica
espiritualidade... a religião é dominante por, no mínimo, ser teológica e esta
é impositora no seio da instituição, é indiscutível. A espiritualidade é como o
amor, é intrínseca ao ser que sendo uno se observa, quando a desenvolve, uno
com todos; a espiritualidade não existe sem a acção humanitária, sem esse uno:
a unidade com o eu e o(s) outro(s) - ou do eu com o(s)
outro(s), um facto(r) da cons-ciência. A religião é
feudal enquanto que a espiritualidade coexiste com todas as formas de
pensamento inclusive e, óbvio, as materialistas que considera um nível sine-qüa-non, da evolução (pelo menos do ponto de vista da
visão) kármica, onde as formas existem nos seus
influxos e refluxos como o ar nos pulmões e o ver do sentir. A religião é
castrante enquanto a espiritualidade obriga a deduzir, em suma: a pensar; cada
um por si e cada um uno com todos, até porque a caridade, a veracidade e a
fidelidade começa na casa que, para além do nosso corpo físico, engloba muitos materiais e matérias mais subtis envolventes da una realidade que é o espírito - a razão de ser e (no) coexistir.
Na religião o sacerdócio é o intermediário entre nós e Deus, na espiritualidade
todos nós somos sacerdotes do templo que é o nosso corpo, segundo a Ordem de Melkytzedéque, todos nós somos Êlôim
(Deus(es) - ou deus(es),
como quiserdes).
Há quem necessite da religião e faz muito bem, há quem
siga pela espiritualidade... melhor ainda! Não há métricas no sentido da
evolução espiritual - consciência -, isto é, o membro
duma religião não está a um metro de evolução e o que segue a espiritualidade a
dois, apenas que a religião diz ao materialista e aos banidos - não
obrigatoriamente excomungados - da igreja-instituição:
«NÃO!» -, sendo isto inconcebível no seio da
espiritualidade.
Olhar a Terra é tão importante como olhar o Céu; ver o
acto humano é vislumbrar o acto divino; encarcerar termos por os encararmos
como erros ou pecados é o encarcerar da vida - afinal
quem somos nós e que autoridade possuímos para condenar os outros? -, de tal modo que a morte, a sua beleza, perde o sentido de
ser fazendo-nos viver numa amargura, velada mas sempre presente... analisada do
ponto de vista puramente materialista
em nada diverge da do espiritual: morrer é realmente morrer, como afirma a
Bíblia: «Pois os viventes estão cônscios de que morrerão, os mortos, porém, não estão cônscios de absolutamente nada...» (Eclesiastes
9: 5). Porque há morte, porque os poetas a cantam, filósofos, romancistas,
ideólogos e tantos outros a assumem ao ponto de a amar-enfrentar,
tal como apelam à beleza e ao amor, decidimo-nos ficar por ela no ponto (em e)
como a conhecemos; isto é: morremos. Não somos mais do que o suplício de
Tântalo ou o absurdo de Sisyfus... é na nossa vontade
e dedicação ao material-glamor (tantos adjectivos
quanto quizerdes), que compreendemos pela qualidade e
não pela quantidade mesmo que esta afirmação pareça cartesiana... É que não o
é!
Buddha afirmou:
«Não devemos acreditar numa coisa dita, meramente porque foi afirmada;
nem em tradições apenas
porque
provêm de longa antiguidade; nem em rumores; nem nos escritos dos sábios apenas
por terem sido escrito por eles; nem em algo que suspeitamos serem fantasias
apesar de sentirmos que nos foram inspirados por algum Deva (isto é, presumindo
inspiração espiritual); nem por inferências surgidas por qualquer acaso por nós
provocado; nem porque aparente ser uma necessidade analógica; nem porque possui
a autoridade dos nossos professores ou mestres. Mas devemos acreditar quando um
escrito, doutrina, ou uma afirmação corrobora com a nossa razão e consciência.
Por isto,», disse Buddha concluindo, «Eu ensinei-vos a não acreditarem meramente
porque ouviram, mas somente quando acreditais com a vossa consciência e, neste
caso, devereis actuar de acordo e abundantemente.».
«Qual tropa regular, a fradaria
Investe a sacra, estúpida ordenança,
A paz, filha do Céu, calada e mansa,
Dos couces, das patadas se desvia.
Preside alto Furor à lide ímpia,
De serpes infernais toucada a trança,
Pançudo frade borra a tudo avança;
O furor marcial nos sócios cria.
De um círio desenvolve heróicos feitos:
Deste rompe o nariz, daquele a capa;
Adeus, ombros; adeus, olhos e peitos!
Do sacro frenesi ninguém lhe escapa...
Oh que bem do Alcorão cumpre os
preceitos
O revoltoso exército do Papa!»
A zombiedade das palavras e das afirmações tornaram o comum mortal num farrapo de pecados
morrendo nos pedaços, nas migalhas da grandiloquência, sujeitos à miséria da
dependência na qual a loucura tornou-se estatuto porque a monta psiquiátrica é
de valor vulto. Mas o comum mortal, que já nem albergues tem
lembra-me Eclesiastes: «... de modo que não há nada de novo debaixo do sol». Ao abandono
sujeitos, baixo a disciplina duma lei, filhos da imposição sem físico para a enfrentar, nada mais do
que o gozo duma nação, sem dignidade
e já sem vida... mas zombiando,
pela força das células e dos neurónios, ainda assistem-ouvem-sentem
as barbaridades da demonstração de vida e demais imprecatórios aspectos que
lhes tiram a virgindade da velhice... da existência.
In Apontamentos
de Yhonathannah
